Arraial dos Cravos

No passado dia 24 de abril, o Arraial voltou ao Carmo

| 28 Abril 2022

Centenas de pessoas encheram o Largo do Carmo de cor e celebraram Abril ao som de Benjamin, O Gajo, Pedro Branco, Tropicáustica, Jovem Conservador de Direita, Luca Argel, Lord Strike, samba, forró e muito mais. No final, não faltaram vozes para cantar “Grândola, Vila Morena”.

A Cultra, a Transform e a Associação Abril lançaram o repto e foram várias as associações, coletivos, ativistas e artistas a responder ao desafio de trazer novamente o Arraial ao Carmo, e de reforçar a ideia da necessidade premente de preservar e defender os valores de Abril.

Ao palco subiram nomes como Benjamin, O Gajo, Pedro Branco, Tropicáustica, Jovem Conservador de Direita, Lord Strike, Luca Argel, Rita Dias, Viva o Samba ou Tó Trips. A Solidariedade Imigrante - Associação para a Defesa dos Direitos dos Imigrantes trouxe o Teatro do Oprimido para o Carmo e o Espaço Baião e a Casa Brasil desafiaram todas as pessoas presentes a dançar samba e forró.

Inúmeras associações e coletivos, como a Associação José Afonso, Associação Artistas Urbanos pela Transformação Social, SOS Racismo, Comité de Solidariedade com a Palestina, Casa do Brasil, UMAR – União de Mulheres Alternativa e Resposta, Sabores da Nossa Terra (Grupo Comunitário Galinheiras e Ameixoeira), Associação Torre Amiga, Cicloficina, Djass – Associação de Afrodescendentes, GAT - Grupo de Ativistas em Tratamentos, Centro de Vida Independente (CVI), Climáximo, Associação de Combate à Precariedade - Precários Inflexíveis, e A Coletiva asseguraram a sua presença no arraial.

Nas suas bancas foi possível conhecer o trabalho destes coletivos, partilhar experiências, falar sobre as lutas que travamos e as que se avizinham, concertar forças. Mas também comer calulu de peixe, cachupa e pastéis de atum, bolo de fubá, caldinho de feijão, e várias iguarias vegetarianas. Nestes espaços encontrámos ainda livros, t-shirts e artesanato.

No final do Arraial, o Coro da Achada deu o mote e cantou-se “Grândola, Vila Morena” a várias vozes. Ao alto, os punhos erguidos empunharam cravos vermelhos. E o Largo do Carmo ecoou: “25 de Abril sempre, fascismo nunca mais!”.

Ver aqui a fotogaleria do Arraial dos Cravos.

A luta que o 25 de Abril continua a inspirar e o povo a exigir”

A iniciativa foi previamente apresentada por Guadalupe Portelinha, presidente da Associação Abril, e Mariana Carneiro, em representação da Cultra.

Guadalupe Portelinha afirmou que o arraial popular assinalou “o início das festividades dos 50 anos do 25 de Abril, como forma de reafirmar os valores, os ensinamentos e a experiência da participação popular, única garantia da defesa e perenidade da democracia”.

Foi com grande júbilo que a ativista lembrou que a vivência em democracia tem agora mais dias do que os que tivemos em ditadura, expressando desejar “que ela seja uma marca forte e duradoura para que não voltemos atrás, para que não deixemos que a escalada da direita progrida no seu caminho predador tanto no nosso país como no mundo”.

“Este Arraial é, ainda, não só um recomeço mas também essa necessidade de manter viva a memória e a luta que o 25 de Abril continua a inspirar e o povo a exigir”, continuou.

Guadalupe Portelinha evocou as conquistas de Abril, quando “o país recuperou a liberdade, foi libertado do silêncio, da permanente tristeza e isolamento, dos pés descalços, das mulheres de luto eterno, amarradas nos seus lenços negros, do analfabetismo congénito, das prisões e da tortura dos que não roubaram e não mataram, da mentalidade retrógrada, castradora, machista, das mordaças, da dor, da morte, da guerra e da cor única”.

“Nesse dia, as pessoas descobriram que as cores do arco-íris iluminavam o mundo e lhes indicavam os caminhos da esperança, e acordaram do seu longo sono e viram que estava bem vivas e dispostas a lutar para conquistar um país melhor, mais justo e equitativo”, afirmou.

Mas a presidente da Associação Abril referiu, por outro lado, que “o contexto político – social, quase universal, de escolha por parte dos Governos de programas neoliberais limitam e oprimem os anseios e as necessidades mais justas dos seres humanos, afastando-nos progressivamente das metas traçadas em prol da igualdade, equidade e justiça social”.

Neste contexto, Guadalupe Portelinha considera que se torna “obrigatório um questionamento sobre a qualidade desta nossa democracia, em vários aspetos da vida, designadamente as situação do desemprego dos jovens, da precariedade e dos milhares de trabalhadores a quem não basta ter um emprego para se livrarem da pobreza”.

É tão necessário falar de Abril hoje. E, mais do QUE isso, semear Abril”

Mariana Carneiro, membro da Cultra, explicou que, com a programação “Abril é Agora”, se pretende “levar a Revolução dos Cravos a todo o país e ocupar o espaço público. O espaço onde, como aconteceu no Carmo, se lutou pela Liberdade”.

Para a ativista, o resgate da memória da resistência antifascista “é uma importante arma contra o fascismo e contra a contaminação da ideologia colonial”, que “nos deve mobilizar a todas e a todos”.

Mariana Carneiro falou sobre “as portas que Abril abriu”, frisando “que não permitiremos quaisquer retrocessos”. Mas fez ainda referência às “lutas que ficaram por cumprir” e ao “caminho que temos pela frente”.

“E é tão necessário falar de Abril hoje. E, mais do que isso, semear Abril”, afirmou, lembrando que, em Portugal, “temos uma representação antidemocrática que atenta contra todas as conquistas de Abril” e “forças políticas que nos acenam com a bandeira do liberalismo e nos querem convencer que este é sinónimo de Liberdade”, quando aquilo que “nos propõem é a destruição do Estado Social, as privatizações na saúde, o endividamento dos estudantes,...”

Mariana Carneiro defendeu que, para que “Abril seja agora”, é preciso estar atenta e responder aos “novos desafios com que se defronta Portugal e o Mundo”. E isso passa por combater “o racismo estrutural em Portugal, uma herança colonialista e bafienta”; acabar com “a precariedade laboral que retira o futuro aos jovens e que penaliza os mais frágeis”; lutar “por uma cultura democrática e uma gestão participada nas escolas”; “responder de imediato às alterações climáticas”; “superar um sistema patriarcal que continua a oprimir e a explorar as mulheres”; e “deitar por terra todas as discriminações contra as pessoas LGBTQI+”.

Como passa também por “compreender que as desigualdades, opressões, discriminações que alimentam o sistema capitalista, sejam elas baseadas em dimensões como o género, classe e diferenças étnico-raciais, se sobrepõem e exigem a interseccionalidade das lutas”. 

No final da sua intervenção, a ativista garantiu que continuaremos a semear Abril todos os dias.